O que fazer
com a saudade,
se não poesia?
Carol Souza

Eu me reviro toda noite, procurando ver se teu caminho vira de novo e dorme ao lado do meu.

Quem sou eu para falar de amor? Se de tanto me entregar nunca fui minha, o amor jamais foi meu, o amor me conheceu, se esfregou na minha vida, e me deixou assim.
Chico Buarque.
Dói ter que dizer adeus, mesmo sabendo que tu já o tenha dito há tempos. Mas qual o problema? Eu vivia de um amor morto, no qual o assassino foi você. Momento antes de matá-lo eu pedi-lhe que tentasse uma vez mais, não passaria disso, porque nunca passamos tão longe quanto hoje. Pedi-lhe que desse-me a mão e eu mostraria à ti que tudo pode ser bom uma segunda vez. Mas fostes tu apertar o coração com tanta força que fui forçado a jogar-me dele.
Dói dizer adeus à quem nunca deveria ter ido, aperta-me soltar teu braço sem ter outro a qual segurar. Pois, se não há teu beijo, não há mais nada. E quando refiro-me ao nada, quero relatar a ausência daquilo que um dia fizemos representar o transbordar de um ser.
Ah, meu amor, quis tu ir embora sem deixar-me avisado. Começastes a correr de repente, sem avisar ao povo que o amor não era contigo. Foi-se tão alegremente, que quase o imaginei voltando e falando ao meu ouvido que nunca atreveria-se a tal maldade, mas fostes, assim como o vento vai depois que tira tudo do lugar. Arrancou-me tudo, assim como faz o esfomeado diante da única refeição do dia. Deixaste-me aqui, sem nem ao menos sorrir ao sol, pois motivo não me sobrou. Mas há motivo pra choro, pois antes éramos nós, e hoje deito-me a sós, encostado no canto direito, oposto a porta, esperando teu caminhar mansinho, aguardando assustar-me na chegada tardia. Nunca mais dormi calmamente, querido.
Éramos apenas um, meu amor, e tu quis repartir-nos em dois, ficando o sonho contigo e a saudade comigo. Divisão injusta, pois de todo aquele amor, tu recebestes o sorriso mais belo e o olhar mais límpido. Coitado eu, que da injusta divisão fiquei com a dor, a saudade e um doente coração.
Com amor, pela última vez, Guilherme Lopes
Um dia a gente toma jeito, se beija, e descobre o cheiro do rosto, a força do hálito e o tom dos nossos olhos, assim bem de perto. Isso eu já planejei mil vezes e estou esperando o momento certo, assustadoramente perdido no caminho errado. Sei que se me puxar pra dançar, vai fazer calor em mim, o vento pode virar e é capaz de chover. Sei também que darei um jeito de ter uma das minhas crises de vinte e cinco espirros consecutivos. Porque, você sabe, sou patético e não sei lidar. Mas não adianta, festa começa, festa termina, você sempre dá um jeito de partir sem mim e o meu coração em dois. E sozinho, mais uma vez, eu vou pra casa te amando em dobro.
Gabito Nunes. 
Here’s a thing, tem gente que não precisa se alimentar. É, eu conheci um tal Thiago de Melo que não precisa de outra coisa, senão leite e biscoitos imaginários. Eu podia até ser poético e dizer que ele, como meu amigo Edgar Munhoz, se alimentava de palavras e copos de poesia, mas não, mas não, é melhor ser literal e dizer que ele comia pelas beiradas até o meio e o inverso. O Thiago de Melo gostava de comidas exóticas, mas não daquelas que a gente vai buscar na Índia, mas umas que se encontram dentro de si. Tem gente que come normalmente e tem gente que se alimenta de sabedoria interior.
— A.E.C Souza
Eu gosto de olhos que sorriem, de gestos que se desculpam, de toques que sabem conversar e de silêncios que se declaram.
Machado de Assis.
No século XXI, há uma doença que não ousa dizer o seu nome: a solidão. Hoje, solidão é sinônimo de revés amoroso, que por sua vez se tornou um estigma do insucesso - atualmente fracassar no amor é como estar desempregado. À noite, o solitário à mesa de um restaurante é um sem-abrigo, um intocável hindu, numa espécie de pelourinho. Perdoa-se tudo nesta sociedade permissiva, menos aquele que não é amado.
Paulo Nogueira.  
Ele vive lá, com seus novos amigos, tentando construir uma nova história, sem nenhum resquício da outra que levava. Parece que ouvi alguém dizer que nem do antigo amor ele lembra mais, o que fez-me sorrir, pois ele aprendeu a ser homem, cresceu sem nem ao menos avisar que deixaria tudo pra trás. Foi aí que entristeci-me e percebi que não haveria mais sorriso no fim da madrugada, nem olho puxado, amor com carinho, ou até sem. Foi aí que o desespero pegou-me de surpresa e fez-me ver que eu amava sozinho, e carregar tudo aquilo sem ajuda alguma era demais, insuportável até pra mim. Eu, que sempre achei o amor igualitário e compartilhado, dividia comigo mesmo o pesar de dois seres, dois grandes corpos em um só coração. Daí que meu peito doeu, aumentou e tremeu. Chorou por uma tarde inteira, pois eu não me permitia ao lazer. Nesse instante ele começou a diminuir pra ver se fazia o restante de ti escoar pra fora.
É o que ele faz agora, mas não entende que primeiro precisa esquecer, pra depois esvaziar. Não entra nele, que você precisa sair, pois assim como eu, ele teme o vazio. E ser cheio dor, é melhor que viver repleto de nada.
Guilherme Lopes
Não há quem não feche os olhos ao cantar a música favorita. Não há quem não feche os olhos ao beijar, não há quem não feche os olhos ao abraçar. Fechamos os olhos para garantir a memória da memória. É ali que a vida entra e perdura, naquela escuridão mínima, no avesso das pálpebras. Concentramo-nos para segurar a dispersão, para segurar a barca ao calor do remo. O rosto é uma estrutura perfeita do silêncio. Os cílios se mexem como pedais da memória. Experimenta-se uma vez mais aquilo que não era possível. Viver é boiar, recordar é nadar.
Fabrício Carpinejar.